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DROPS DA FAL



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20/05/04

Mamãe!!

Dia da mães.

Que felicidade!

Um dia para mimá-la e agradecer tudo o que a santa fez por você todos esses anos. As horas perdidas na cabeceira da sua cama enquanto você fingia dor-de-ouvido pra não ir fazer a prova de biologia, seu imprestável. As vezes em que ela torrava o dinheirinho juntado a duras penas num par de patins ou numa nova bicicleta para você, dinheirinho que era para uma nova camisola ou para aquele estojo de maquiagem. Aquele mesmo par de patins que estava na boca do cachorro uma semana depois, a mesma bicicleta largada na chuva no dia seguinte da compra. Todas as vezes que você chegou sem avisar com sua quadrilha, digo, com seu grupo de amigos, todos famintos como lobos, e a coitada lá, se esfalfando, caridosamente alimentando, com apenas meio pacote de pão de forma, dois ovos e uns pedaços de queijo duro, você, o Fabão, o Boca Santa, o Alpiste e o Gordurinha. E enquanto a pobrezinha fazia o milagre da multiplicação dos restos de geladeira e conversava com seus amigos, o primeiro humano que falava com eles em semanas, você fazia o que, ó, filho ingrato? Exato, se balançava feito um suicida nas pernas de trás da cadeira da cozinha e revirava os olhos, resmungando ?minha mãe só me faz passar vergonha?. Ingratidão, ingratidão. E a vez em que você comunicou, às dez e meia da noite, que o projeto de ciências era para amanhã, primeira aula, e a coitada passou a noite às voltas com bolinhas de isopor, cabides e argila, tentando reproduzir o sistema nervoso duma rã-malhada-das-estepes. E depois você ainda reclamou da nota. Hum, e quando a pobrezinha voltou de Aparecida com a Tia Miloca e pegou você na sala, peladão, cantando Matriz e Filial, usando a escova de lavar privada como microfone? Você não acha que toda uma vida de decepções, agonias, e dores merece uma compensação? Um pedido de perdão pelas 48 horas miseráveis de trabalho de parto que ela atravessou porque você era muito cabeçudo, por todas as suas calhordices, o tanto de dinheiro e cigarros que você roubou das bolsas dela, cursos largados no meio, amigos esquisitos e namoradas inadequadas? Sim, você acha. E você até já sabe como. Você, e mais metade da população da cidade, tiveram a brilhante idéia de levar a mamãe a um restaurante no Dia das Mães! Para poupar trabalho, eu sei. E aí, ao invés de passar longas e miseráveis horas de pé na cozinha, mamã passará longas e miseráveis horas de pé na fila do restaurante. Tenha santa paciência! Você é um adulto, coragem, encare a cozinha. Mãe vale esse sacrifício. Nada muito complicado, mas feito com cuidado, com amor, uma mesa bonita, bem montada, a louça boa usada finalmente. (Aliás, use tudo que você tem de melhor, sempre, sempre. Caixão não tem gaveta.) E depois de ter mimado sua mãezinha com uma comidinha saudável, cheirosa, nada de ir pro sofá, belo. Tem que lavar a louça e arrumar a cozinha. Mãe sofre.

Algumas dicas fáceis, pra você zerar seu karma:

ARROZ DE FORNO ZERADOR DE KARMA
O bom desse prato, é que ele pode ser acompanhamento ou a refeição completa.

Ingredientes:
4 xícaras de arroz cozido misturado com 4 colheres de queijo parmesão ralado e 50 gr. Ou ? um punhado? de uvas passas escuras
1 lata de molho de tomate pronto
200g de queijo mussarela fatiado
400 gr. de peito de frango desfiado
2 ovos cozidos

Modo de preparo:
Num refratário, coloque os ingredientes nessa ordem:
Metade do arroz, metade do molho, metade do queijo mussarela, metade do frango. E repita espalhando os ovos cozidos fatidos no final. Povilhe com queijo parmesão ralado e leve ao forno quente por aproximadamente 20 minutos.


SALADINHA FÁCIL DO FILHO RELAPSO

Ingredientes:
2 latas de grão-de-bico, (não, eu não vou pedir pra você cozinha o grão de bico, eu não peço milgares), aberta e escorridas
1 cebola picada
Meio maço de cebolinha picada
1 caixa de figo lavados e cortados na metade
2 latas de atum
1 xícara de maionese (a maionese podia bem ser feita em casa, né? Tá bom, tá bom, não reclame, compre um pote)
1 maço de alface americana
Sal e Pimenta

Modo de preparo:
Misture os ingredientes, e pare de fazer caretas que é facílimo, eu nem devia ter que ensinar isso.

BOLO DE CHOCOLATE ? PERDÃO MAMÃE, EU PROMETO MELHORAR?
Isso aqui pode ser um pouco, só um pouco, mais complexo. Mas não desista. Chame a sua irmã e seu cunhado, que é outro bagulho, para ajudar.

Ingredientes:
4 ovos
2 xícaras de chá de açúcar
200 gramas de manteiga derretida
1 e 1/2 xícara de chá de leite
1 xícara (chá) de chocolate em pó
2 e 1/2 xícaras de chá de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
2 latas de cobertura para bolo, que você vai usar de recheio e de cobertura


Modo de preparo:
Pré aqueça o forno em mais ou menos 220 graus.
Separe os ovos (reserve as claras) e bata as gemas com o açúcar. Junte a manteiga e torne a bater. Junte os demais ingredientes, sem parar de bater. Divida a massa entre duas assadeiras redondas untadas e leve ao forno para assar. Desenforme os bolos já frios. Elimine as bordas grossas e arrume um dos bolos num prato de servir. Coloque uma boa quantidade de recheio de sua preferência, coloque o outro bolo por cima e cubra tudo com a cobertura para bolo.

Doeu, vagabundo?


# posted by eu
7:37 AM

04/04/04

Uia, que coisinha doce. Outra carta linda. O problema dessa cartas deliciosas, é que elas me transformam numa vagabunda! Quem quer escrever se pode roubar as amigas?
Bela, beijos e mais beijos pra vc, suculentos como a sua carta.

"Querida Fal,
Não nos conhecemos...lí seu blog e fiquei encantanda!!!
Mandei até recadinho elogiando e tal.
Mas depois de ontem, essa receita tinha que chegar até vc...fiquei imaginando que só uma pessoa com a sua sensibilidade gastronômica ( e é claro, sendo mulher como eu) poderia compreender.
E vc sabe: mulher é um bicho muuuuito esquisito mesmo. Lindo, mas esquisito...cada vez me convenço mais.
Como é que um ser humano, com a mínima capacidade intelectual e um conhecimentozinho básico de si mesmo não consegue perceber que está sob os efeitos diabólicos de hormônios enfurecidos????
"Peloamordedeus"!
Fiquei insuportável de ontem pra hoje...chorei ouvindo música (quem conhece Natalie Merchant, procure "One fine Day" e chore quando ouvir, tb!)...quis pular na jugular do primeiro que me olhasse atravessado(coitados dos meus homens: marido e 2 filhotes, todos homens!)...me irritei profundamente com as coisas mais bestas...nem eu me aguentava mais.
Fora a fúria desmedida de comer até o reboco da parede, né?
Passei a manhã na cozinha...inspiradíssima pra fazer comida e comê-la obviamente(como dizem que a ordem dos fatores não altera o produto!???)
Aliás era a única pra qual eu tinha paciência...
Então caprichei: arroz integral com sementes de papoula por cima, salada de verdes com mais verdes e mais castanhas e damascos, e uma carninha(filet mignon recheado com gorgonzola...)Feijão de defronte(como se diz lá na Bahia...porque o feijão do vizinho é sempre mais cheiroso que o nosso!),farofa de manteiga, feita com aquela farinha láááá de Nazaré das Farinhas-Ba...fiiina e torradinha...amarelinha.
E pros que não comem carne (é, infelizmente alguns dos meus amigos são hereges!!!) um filetzinho de linguado feito no forno, só com azeite, sal, pimenta do reino, manjericão fresco e endro dill ( aquele priminho em forma de folhas da erva-doce) e umas poucas gotinhas de limão, ou vinho branco seco se preferir.
Sobremesa???
Aí, eu pirei na batatinha!!!
Quer dizer na pêrinha...
menina, fiz uma pêra cozida no vinho do porto, com umas lasquinhas de canela e uns poucos cravos...
ela fica liiinda de morrer.
E o cheiro...tomou conta de cada cantinho da casa e da minha alma perturbada!
Parecem barquinhos púrpura...uma coisa!
Olha a minha demência aí, gente!!!!!
Barquinhos púrpura foi forte!
Bom, retomando: depois de cozidas, elas ficam lá deitadinhas na panela, só que dentro da geladeira. Isso mesmo, tem que estar geladinhas em breve!
Derreti uma barra de chocolate meio amargo em banho maria, obviamente...
Peguei as pêras geladas e afoguei, sem dó nem piedade, dentro do chocolate...tirei com aqueles pauzinhos japoneses...Hashi, né?
E botei pra escorrer numa grelhazinha improvizada...uma assadeira com a grade do forno por cima(bem lavada, querida, pelo amor de Jesus Cristo!).
Quando elas estavam uma coisa de endoidecer...sequinhas...eu botei cada uma num pratinho com uma bola de sorvete de "flor de leite"(tenho a sorte de ter uma senhora sorveteria italiana aqui!!! Do meu amigo Bruno...obrigada, Senhor!) e uma folhinha de hortelã, só pra ficar uma coisa beeem "fresca"!
Como a guerra hormonal não se deu por vencida: peguei um pote de geléia de framboesa, daquelas importadas, sem açucar...e dei uma dissolvidinha com um pouco mais de água...pra ficar uma calda vermelha escura, quente, linda!!!!
E...tãrãn: joquei por cima do sorvete.
Pura insanidade!
Se no prato tava lindo...
Na boca, virou uma cooooooooisa: o macio da pêra perfumada pelo vinho, o croc do chocolate, a cremosidade do sorvete e o azedinho da calda rubra.
Depois disso, só uma rede e um sujeito pra te abanar(só pra abanar meeeeeesmo, que depois da comilança dizem que até faz mal...hehehe) até desmaiar.
Quando acordei...pronto, desvendado o mistério da Noite Negra, Fria e Modorrenta que se abateu sobre o meu espírito: cólicas e abrir um pacotinho novo de absorvente...e a calmaria voltou à imperar...ufffffffffffffffffaaaaaaaa!
Acho que depois dos 30 esses ataques hormônais mensais se agravam!
Cruzes!
Bom, chega de bobagem.
O que importa é que me rendeu uma nova e deliciosa receita...e que hoje estou ótima!!!!
E ah!!!!
Hoje é aniversário do Drops, né?
Parabéns por ele tb...amei os dois.
Beijocas e até a próxima TPM!
Bela"

# posted by eu
8:59 AM

02/04/04

Mais carta!!!!!!!!!
(quem mandou tb, carma, vou pondo por ordem de chegada,:o))) )

Naty, amei isso, amei, amei.


"Falzinha fumiga!

Sábado duas da tarde e eu ia dormir agora. Mas tem uma carta pra você martelando minha cabeça desde ontem.

Uma carta pra falar do nosso lado fumigo. Sim, porque se houver alguém que ama doce tanto quanto você, pode Ter certeza que sou eu.

Eu acabei de almoçar e como sempre veio aquela vontade incontrolável de comer um docinho. Tem sorvete de chocolate aqui, mas ele não é nem de longe o que eu desejo mesmo.

O que eu desejo agora é doce de verdade, doce de fruta...dos que eu comia na casa da vovó e da mamãe. Doce de buriti, gorduroso até a alma, mas maravilhoso. Doce de goiaba "duro", no ponto de puxa-puxa, que a minha vozinha fazia quando tava muito inspirada. Ou doce de goiaba "mole", meio líquido, que ela fazia quando tava com preguiça. Doce de goiaba em calda ela não gostava de fazer, dizia que dava muito trabalho. Mas comprava sempre, mesmo tendo uma goiabeira em casa. E a gente comia com creme de leite...Ai ai!

Era outra fumiga a dona Neném...sabe o que ela comia no meio da tarde? Mel de rapadura. Raspava a rapadura, colocava numa panela com um pouquinho de água e deixava derreter até ficar no ponto de mel. E comia com batata doce cozida...Doce, doce, doce.

Eu adoro também doce de banana em calda, feito com pauzinho de canela e cravinhos. Aprendi a fazer, é bom demais.

E doce de jaca agora me lembra você. Tô doida pra ver você comendo, pra ver se vai gostar tanto quanto eu! Como eu te disse naquele dia, é uma coisa melada e deliciosa.

E as passas de caju que a tua amiga falou aqui são chamadas de "caju-ameixa". Porque fica parecendo ameixa mesmo. Meu pai faz com calda e sem calda. Eu gosto dos dois jeitos. Sem calda ele passa no açúcar. Nossa Senhora dos Gordinhos que me proteja, mas eu como mesmo!

Caju é uma das riquezas do Piauí. Aqui se faz de tudo com ele. Tem um tal de doce de caju com castanha que você não acredita. Pegam o caju e fazem cajuína (uma bebida docinha daqui, deliciosa, te falei dela outro dia). Aí sobra o bagaço. Esse bagaço é cozido com rapadura e vira uma pasta preta, aí colocam castanhas de caju torradinhas nela. Misturam tudo. Não sei bem como, mas vira um "tijolo" de doce. A consistência não sei bem explicar. É quase puxa-puxa, mas não chega a tanto. Você morde com força, aí encontra uma castanha no meio pra "quebrar" a doçura do negócio.

E sabe o que mais tem por aqui? Doce de casca de limão. Será que você conhece? É lindo, Falzinha! Não sei fazer...é uma arte aquilo. Só iluminados conseguem. Pegam o limão e cozinham, tirando uma pequena tampinha. Aí quando tá mole, retiram tudo de dentro com uma minúscula colherinha, sem estragar a casca. A "cumbuquinha" tem que ficar inteira, bem redondinha. Aí cozinham de novo, com açúcar, a calda fica fininha e as bolinhas verdes ficam nadando nela. Aqui comem puro ou com creme de leite. Prefiro com creme e faço igual criança, com muito cuidado encho a bolinha com o creme e quando mordo faz ploc!!

E casei com um gordin que não gosta de doce, veja só. Faço um bolo enorme e ele prova uma fatia, só mesmo pra me agradar. Minha pequena parece que puxou ao pai nisso...troca um delicioso pedaço de goiabada por um cream cracker sem graça...humpf...Fico eu sozinha aqui, ardendo por um docinho.

Quer fugir comigo pr´aquele Planeta Doce que o Jô Soares morava no Plunct Plact Zoom?! "Marshmallow, chocolate, caramelo, chantilly...quanta criança com cobertura, doces melhores eu nunca vi". Lembra da musiquinha?

Beijos docinhos pra você
Naty"

# posted by eu
3:24 PM

27/03/04

# posted by eu
8:02 PM

12/03/04

"Fal:
(...)
E, agora, vc vem com esse blog de-li-ci-o-so, me lembrando os bolos de
coca-cola e crush da minha infância, que são invenções da minha mãe e da
vovó, respectivamente. Me lembrando o pão que a minha mãe fazia quando
pirou de vez e resolveu ficar doidona aos 30 anos. Acho que, por anos a
fio, esse pão era a única coisa que eu aprovava nela. Me lembrando as
fatias douradas (aí, vcs chama d erabanada, né?) da minha avó, as bananas
fritas com açúcar e canela da minha babá, as groselhas e os dindins de
maracujá com leite (aí vcs chamam sacolé, eu acho) que eram vendidos em
Nova Russas e pelos quais eu era capaz de furtar o dinheiro do pão, que
ficava em cima do móvel da cozinha.
A minha comida de colo atualmente é hambúrguer com batata frita (é, que
decadência...), que o Cao faz pra mim, nos finais de semana, já que minha
mãe esqueceu a receita do pão e eu não consigo mais aprovar nada nela.
Eu passei a crônica da Comida-de-Colo pro Cao. Vamos ver o que ele acha...
Um beijo,
Clio."

# posted by eu
9:43 PM

10/03/04

"Fal,

uma vez que você é casada com pernambucano, é bem capaz de saber o que é passa de caju.

ah, passa de caju. que meu pai trazia de tamandaré, onde era vendida ao lado das ruínas da igreja de nossa senhora do ó. a passa que, diziam, era feita com os cajus que cresciam no cemitério.

passa de caju, para quem é de outras terras, é uma coisa estranha. quando mandei um pote, ainda namorada, para fred, ele estranhou e depois me confessou que não comeu porque ficou com medo.

passa de caju é doce de caju seco ao sol. fica pretinha, calda preta também. prá fazer, ai que trabalho. pega o caju. tira a castanha. fura o caju todo com o garfo e aperta para sair o suco. fura mais. aperta mais. fura mais. aperta mais. não é para esbagaçar! e faz o doce. e pega a peneira, e pega um banco, e pega o doce. bota o caju na peneira, a peneira no banco, o banco no sol. muito tempo! dias, dias. mas tem que ser no sol.

aferventa de novo para fazer a calda. pouca, não é em calda feito goiaba em calda, a calda é uma coisa sutil.

e depois, deus do céu, come de pouquinho, de colher de chá para render muito.

e se você não conhece, fal, conversa com os parentes do maridão. pode até não ser a passa de caju de tamandaré, mas você precisa experimentar. faz chantagem, chora, diz que a honra do estado está em jogo. se comer e achar que todo esse trabalho não valeu a pena, manda o resto da passa para mim! ;)Stella"

# posted by eu
5:15 PM

27/02/04

"I woke up this morning baby
I had you on my mind "

Joe Stafford, Jr.

# posted by eu
7:06 AM

21/02/04

CLOTILDE
OK, devo confessar: eu tenho uma ressaca de estimação. A danada se chama Clotilde e é uma minúscula mulher-das-cavernas, que fica agarrada aos meus cabelos, esmigalhando tijolos nas minhas têmporas enquanto chuta minha nuca. Qualquer deslize, qualquer tacinha a mais de Bailey’s com gelo, qualquer jarrinha de tequila com soda e limão... batata!. Dia seguinte eu já levanto da cama com a Clô grudada na minha cabeça.
Os médicos mandam a gente se hidratar, comer coisinhas leves com pouco tempero e ter juízo da próxima vez.
Minha mãe me diz que o bom pra ressaca é um copão de suco de tomate com vodka logo ao acordar, ou cerveja preta batida com ovo no café da manhã. Mas quando foi que a minha mãe já me deu um bom conselho nesta vida? A teoria assombrosa dela é a seguinte: se a ressaca só aparece quando ficamos sóbrios, devemos continuar bêbados. O mundo está perdido.
Deixo minha mãe e seus elefantes cor-de-rosa pra lá, e sigo o que os médicos dizem.
Não sei vocês, mas numa hora dessas, com Clotilde babando nas minhas orelhas, eu não posso nem pensar em receitas elaboradas, formas untadas, ingredientes rebuscados, cheiro de comida condimentada e, que Deus me perdoe, cozinha bagunçada. Eu quero uma comidinha leve, fácil de engolir e que não agrida o meu já conturbado estômago. Ah, e que, de preferência, eu já possa deixar pronta na noite anterior à esbórnia. Hum, e, claro, que eu consiga fazer de óculos escuros.

GASPACHO

Ingredientes
3 pimentões verdes
2 kg de tomates vermelhos (bem maduros)
3 dentes de alho
2 pepinos
200 ml de azeite extravirgem
100 ml de vinagre de vinho
1 xícara de água fria (chá)
sal a gosto


Preparo
Descasco os pepinos, tiro as sementinhas dos pimentões, limpo e pico grosseiramente todos os vegetais e bato os ingredientes todos juntos no liquidificador até que eu obtenha uma massa uniforme.
Depois passo numa peneira não muito fina. Tomo bem gelada, meditando sobre os meus muitos pecados da noite anterior. Bom, dos que eu me lembro.


VITAMINA

Ingredientes:
2 bananas
2 colheres de mel (sopa)
1 maçã descascada
1/2 copo de leite

Preparo:
Bato todos os ingredientes no liquidificador. Se você quiser, pode colocar gelo. Na vitamina e na sua cabeça.

SALADÃO

Ingredientes da salada:
2 maçãs picadas (pode ser com casca)
1 pé de alface americana
10 tomates cereja cortados ao meio
1 lata de milho
2 cenouras raladas
1 pepino ralado

Opcionais:
Se você tiver um estômago forte (o que não é o meu caso durante uma ressaca – definitivamente), você pode acrescentar à lista de ingredientes uma lata de atum sem óleo. Por um lado é uma proteinazinha, por outro é aquele cheiro de peixe penetrando nos nichos do seu cérebro já debilitado. É melhor deixar pra lá.

Ingredientes do molho:
Bão, dependem, novamente, das suas possibilidades físicas.
Eu, pessoalmente, espremo dois limões e bato o suco com uma colher de mostarda e um pouco de sal.
Mas pessoas de nervos de aço podem acrescentar duas ou três colheres de creme de leite no tempero básico. Ou molho de soja. Ou, ainda (credo, credo, credo!), uma colher de mel.

Preparo:
Não tem mistério. Misturo os ingredientes delicadamente, jogo o molho por cima dos vegetais e como devagar, sentindo que meus dois neurônios querem fugir da minha cabeça e jurando que nunca mais, nunca mais. Até a próxima vez.

# posted by eu
11:07 PM

10/02/04

"Comei os líquidos e bebei os sólidos"
M. Gandhi

# posted by eu
9:42 AM

09/02/04

Vem no colinho!

Tinha vezes que eu chegava à chácara da minha avó Cidona (em Dois Córregos, no interior do estado de São Paulo), descia do carro e ... estava na cara, no olhar, nos ombros arqueados, na voz rouca. Eu precisava de colo. Minha avó me beijava (e olha que a velha não era muito de beijo) e ia fazer meu colo favorito: mingau.
Tem aqueles dias em que não adianta: você quer colo, você quer conforto, você quer cafuné. Você não quer ser essa mulher-moderna-de-comercial-de-absorvente, você não quer ser uma “guerreira”, “aquela que batalha”, “aquela que resolve tudo”. Você quer ser, sim, transportada para um passado mais simples, você quer ser uma pessoa sem problemas e sem grandes expectativas, você quer apenas segurança, calor e a ilusão breve, breve, de que está tudo bem, o mal sempre perde e de que nada mudará. Você quer uma Comida-de-Colo.
A sensacional Nina Horta, no seu livro “Não é Sopa”, define isso magistralmente: “... é aquela que consola, que escorre garganta abaixo quase sem precisar ser mastigada, na hora de dor, de depressão, de tristeza pequena.” É isso. A Comida-de-Colo aparece quando não se quer (e nem se pode com) nada muito quente, muito frio, muito doce, muito amargo. Comida-de-Colo é aquela que está ali, como um amigo querido, cuja presença silenciosa acalma, ampara. Nada de ingredientes complicados, listas de supermercado, horas e horas de preparo, escolha de vinho, nada disso.
E, outra coisa, nessa categoria de comida de colo, como em quase tudo na vida, aliás, cada um, com seu cada um. Nossa companheira, a psicopedagoga baiana Mani (http://www.livrorazao.blogger.com.br), procura colo e conforto em comidas feitas de chocolate, mas não no chocolate puro.
A jornalista Natacha Maranhão, editora deste caderno, gosta de (pasmem vocês) macarrão com queijo frio, para se sentir segura e protegida. A advogada e escritora Cam Seslaf me escreve dizendo preferir: “Cabelinho-de-anjo com bastante manteiga e queijo ralado por cima, debaixo das cobertas, de preferência. Não falha quase nunca.”
Já esta vossa amiga, agora que perdeu a avó e não encontra quem lhe faça o mingau perfeito, busca refúgio e abrigo das intempéries num bolo materno e no manjadíssimo pudim de leite, quando a crise é pequena e dá tempo de preparar.
Quando a coisa é feia e o tempo urge, eu mamo numa lata de leite condensado mesmo e estamos conversados.
Pudim de Leite Condesado Clássico
Ingredientes:
- 1 lata de leite condensado
- 1 lata de leite integral
- 3 ovos inteiros
Para caramelizar a forma:
- 6 colheres (das de chá) de açúcar
Modo de Preparo:
Eu bato o leite condensado, o leite e os ovos no liqüidificador.
Aí, caramelizo uma forma de pudim com o açúcar.
Asso em banho-maria, em temperatura média, prestando atenção no seguinte: é preciso que o pudim esteja firme, douradinho, mas não muito duro, porque depois de esfriar ele endurece mais um tiquinho.
BOLO-DE-BOLO-DA-MARLI
Ingredientes
2 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de açúcar
1/2 xícara de óleo
3 ovos
1 laranja inteira
1 colher (sopa) de fermento
Para a calda, 1/2 de copo de suco de laranja (a julgar pelos copos da mamãe, isso é mais ou menos uns 80 ml de suco)
Como fazer:
Pré-aqueço o forno em temperatura média (180 graus). Lavo a laranja e corto em quatro partes, tiro as sementes e os fiozinhos brancos internos. No liquidificador (no mix não dá, eu já tentei, o meu, pelo menos, num güenta com a laranja), bato a laranja (é, com casca), os ovos (ah, sem casca, hehe) e o óleo.
À parte, misturo a farinha (peneirada, podem me chamar de fresca, mas fica melhor), o açúcar e o fermento.
Daí, eu despejo o que foi batido na tigela e bato com a colher de pau.
Ponho tudo na forma e depois: forno!
Quanto tempo de forno? Isso é de uma delicadeza incrível. Como eu não conheço seu forno, aliás, nem a sua casa, aliás, eu nem sei onde você mora, eu aconselho o velho truque do palitinho-espetado, além de olho, nariz e bom senso. No meu forno, demora cerca de 26 minutos.
Quando o bolo sai do forno, lindo, dourado e glorioso, eu despejo (nele quentinho) o suco coado de laranja, bem devagarinho, espalhando bem para não “alagar”.
Daí eu desenformo e não deixo esfriar, claro. Como antes.


Jornal Meio Norte

# posted by eu
10:29 AM

20/01/04

Só a esther sabe que aliche tb chama anchova. Eu e o Aleh távamos faz diiiiias tentando lembrar o outro nome do peixinho. E ainda deu receita, a bandida:

STEAK TARTAR COM ALICHE
300g de filé mignon
1 gema de ovo
1/2 cebola picada
1 colher de sopa de picles picado
1 colher de sopa de salsa picada
1 pedaço pequeno de aliche (anchova em conserva)
Molho:
1/2 xícara de chá de mostarda escura
1/2 xícara de chá deazeite
1 colher de sopa de conhaque
1 colher de sopa de molho inglês
Sal e pimenta a gosto
Suco de 1/4 de limão
Junte em uma vasilha todos os ingredientes do molho misturando, sem bater, até formar um mistura homogênea. Reserve.

Pique em pedaços bem pequenos o filé mignon. Junte a cebola, o picles, a gema, a salsa e o aliche amassando com um garfo e colocando, aos poucos, o molho. Ao terminar de colocar o molho, continue mexendo, até que a mistura fique homogênea. Sirva com fatias de pão preto ou torradas
esther maria diz:
Rendimento: 2 porções

uia, qui diliça!!?? eu vou fazer e ela tb.

# posted by eu
4:26 PM

07/01/04

Sobremesas Rápidas

Sobremesas Rápidas?
Sim, e beeeem rápidas.
Eu adoro aqueles doces rebuscados, sabe? Muitas camadas de chantily, muito pão de ló, muita massa podre e folhados, rá, quem não gosta?
O problema é fazer, certo? Quero dizer, eu amo comer doces, eu troco qualquer refeição por um bom doce (como aliás atesta o meu manequim 52), meu amor por açúcar, qualquer açúcar, só não é maior que meu amor por chocolate.
Mas eu não quero trabalho. De jeito nenhum. Nem cozinha bagunçada, formas e mais formas com calda grudada, nada disso. Então, os docinhos rebuscados, com camadas de creme, de receitas elaboradas eu vou comer na sua casa. Na minha eu faço receitinhas rápidas, simples e gostosas.
Duas delas estão aqui, e são vergonhosamente fáceis. Eu sei que a preguiça é a mãe de todos os vícios, mas mãe é mãe, precisamos respeitar.

Delícia de Pêssegos

Ingredientes
1 lata de leite condensado
1 lata de creme de leite
1 lata de pêssegos em calda sem as sementes

Bato todos os ingredientes no meu liquidificador (inclusive a calda dos pêssegos), até obter um creme grosso, encorpado e sem pedacinhos. Ponho para gelar por três ou quatro horas.

Meu Brigadeirão

Ingredientes:
2 Latas de leite condensado
2 Latas de leite
6 Ovos
6 Colheres (sopa) de chocolate em pó
1 Colher (sopa) de margarina

Bato todos os ingredientes no liquidificador e despejo em uma fôrma para pudim de tamanho grande, untada com manteiga, em banho-maria. Levo ao forno pré-aquecido em temperatura média até endurecer. No meu forno, regulado para 220 graus, ele fica pronto em aproximadamente duas horas. Você sabe que está no ponto quando você enfia um garfo na massa e ele sai “limpo”.

(para publicação no Jornal Meio Norte/9 de janeiro de 2004)




# posted by eu
6:25 PM

02/01/04

Hum, aprendi no livro novo do Bourdain...

Café Vietnamita
Um copo longo com gelo picado (eu não tenho saco de picar gelo, usei cubos e tudo bem), café pelando de quente e bem forte e por cima.... leite condensado. Yes. Existe um deus e ele não quer que vc caiba nas suas calças jeans.

# posted by eu
12:04 PM

03/12/03

Correspondência Gastronômica Secreta:

"Falzinha, eu me lembro de dizer pra você que a coisa mais importante pra mim, num relacionamento, era sexo (e era mesmo, naquele momento). você riu, e disse "pobre de você", desse jeito que você tem de dizer as coisas certas sem machucar a gente. mas não foi a primeira coisa certa que você disse e eu não ouvi, você sabe. o tempo passou (nem foi tanto tempo assim) e eu acho graça da minha miopia. as coisas são diferentes hoje, sim, e queria que você soubesse que tem seu dedinho nisso. eu jamais esqueço as conversas importantes, e essa foi uma delas. um papo aparentemente superficial que ficou aqui, registrado. hoje não penso, ou melhor, não sinto da mesma forma. sexo é importantíssimo, sim, mas não é tudo, assim como amizade não é tudo e nem companheirismo é tudo. a combinação dessas coisas todas, como numa receita, é que faz a mágica acontecer. como um bolo, que a gente pega a receita com alguém e a danada não dá certo nas primeiras vezes. a gente faz várias vezes, uma vez murcha e a outra empedra; às vezes a gente esquece e o infeliz queima no forno; tem vezes que o fermento tava estragado de tanto tempo sem usar e fica aquela meleca; só que às vezes a gente acerta, e é como um sonho: um bolo fofo e dourado saindo do forno, quentinho. não que a partir daí a gente acerte sempre, mas pelo menos a gente sabe que dá certo, sim, que vale a pena tentar, vale a pena aquele friozinho na barriga de ansiedade, "será que vai dar certo?". obrigada minha amiga e meu amigo, meus irmãos queridos. vocês não sabem, mas me ensinam.
Zel"

As metáfora culinárias da deliciosa Zel

# posted by eu
1:36 PM

25/11/03

Correspondência nada Secreta: (vixe, credo, eu tou tão descarada, que roubo posts inteiros, quilométricos da mani)

"Fal,

Eu sou de uma cidade chamada Juazeiro, na Bahia(não confundir com Juazeiro do Norte, Ceará, terra do padin Ciço).Na minha cidade nasceu João Gilberto, orgulho local.É uma cidade linda, às margens do rio S.Francisco, separada de Petrolina, em Pernambuco, por uma ponte, uma rio/niterói em menor escala.Talvez você conheça "eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina".
Mudei pra Salvador ainda pequena, lá ficou minha bisa, que já conheci velhinha mas forte como a mulher sertaneja costuma ser, apertada no seu coque, os cabelos muito brancos, no seu vestido preto, em eterno luto por um bisavô que nem meu avô conheceu direito, morreu cedo.
Junho era mês de férias no interior.De brincar na praça, cantar muita cantiga de roda, ir pra fazenda, correr, subir em árvore,e de ...comer.
Deus, como se comia!
O dia todo a gente comia.Frutas a gente chupava o dia todo, fruta não era comida, não tinha hora, era passar correndo e pegar uma banana ou uma tangerina ou subir no muro pra conversar chupar manga.Jaboticaba, carambola, tamarindo, ui!
Você já comeu juá?
É um coquinho catingueiro, sem gosto de nada mas viciante, é espinhento, uma amêndoa, não sei explicar.
Não tem graça nenhuma, mas depois que cê come o primeiro, adeus, vai passar a vida sonhando em sentar na árvore e comer todos.
E a comida, meu Deus?
E o leite?
Minha mãe é viciada em leite, eu também.Mas como não ser quando se cresce perto de vacas?
De manhã não se comia frutas, não se usava.Era café com leite, em grandes xícaras de louça de um bege quase cinza, com uns gomos em relevo.Cuscuz de milho(só de milho com água, nada de coco, queijo, essas coisas) e manteiga de garrafa(manteiga líquida) por cima, embebido.Ovo frito ou mexido com farinha.Farofa de bode frito.Beiju de tapioca(também só a tapioca com água e sal) também regado a manteiga.Pão feito em casa, casca duríssima, miolo fofo.Minha avó e minha bisa comiam só a casca, nós brigávamos pelo miolo.Queijo branco, chamado "de minas" mas feito "ali" na fazenda.Banana da terra.Batata doce.
Tinha que comer "ao menos um pedacinho" de tudo, ou a bisa zangava.
O almoço, ai Jesus!Carnes, muitas carnes, assados, cozidos, galinhas enormes em ensopados monumentais, bode, carneiro, peixes de rio, ai, os surubins!Legumes, muitos e variados, abóboras, quiabos, batatas, doces, cozidos imensos coloridos, sucos, aí, sim, tinha que ter pelo menos três tipos de " refresco", sobremesas de doces, também variados, doce de leite, de goiaba, de banana, de abóbora.
Merenda era sequilho, café com leite, doce, bolachas com manteiga.
E a cozinha!Ah, a cozinha era um templo!Uma caverna aberta no subsolo, escura, iluminada pelo fogão a lenha eternamente aceso, cheia de mulheres que conversavam sobre tudo e crianças que se esgueiravam procurando ouvir alguma coisa, atraídas pelo cheiro do tacho de goiabada eternamente fumegante, ou dos biscoitos fritando na gordura quente, mercadorias no escambo do suborno do segredo."Vixe, Mulé, psst,calada, ói as criança""Toma, Fia, uns biscoitinho, vai brincá, vai".
O jantar era uma mistura de café da manhã, com as sobras do almoço e mais umas incrementadas, e haja comida!
E as bananas amassadas com aveia, os abacates amassados com açucar, mamão com mel.
Se comida nos define, eu sou assim, sertaneja, gosto de comida de verdade, de manteiga, leite, de carne do sol e cozido.Gosto de lento-food, de sentar na mesa e comer, conversar, rir, trocar os pratos, comer sobremesa e conversar mais e rir mais, e levantar de barriga cheia pra fazer a sesta na rede, com café socado no pilão com açucar mascavo e leite com tanta gordura que fica aquelas bolhas amarelas em cima.
Tem jeito não, Diet, jamé!
Mani"

AH, Mani, que coisa mais linda, amei, obrigada, querida.

# posted by eu
4:37 PM

23/11/03

Tenho reparado que ultimamente, minha carreira literária se resume em copiar a Flávia e me aproveitar de tudo o que ela escreve, alguém mais notou? Lamentável. Mas a vida é assim mesmo. De modos que, prepare-se Flá, eu vou te dar quantos gorpes eu puder. A croniqueta a seguir partiu duma carta de amor dela. Sigamos, pois, com nossa programação normal.


Ciranda Cirandinha


Minha mãe não era muito de me enfiar na cozinha.
Primeiro porque ela mesma não ia muito pra lá. Embora ela cozinhe descaradamente bem, eu cresci na década de 70, milagre econômico e, acreditem vcs ou não, qrr médico razoavelmente bom e organizado, fazia fortunas (e sim, sem atender planos de saúde). Posto que meu velho e saudoso pai não era bom, era do cacete de bom (tá aí bela Lola pra confirmar), ele fez uma senhoura grana nos anos 70. Depois torrou tudo, mas isso é outra história. Mas vai daí, que Dona Marli tinha cozinheiro, empregadas e quejandos, e só entrava na cozinha pra fazer bonito.
Segundo, ela não me enfiava na cozinha, porque era praticamente impossível. Eu era uma força da natureza, não uma criança. Passava o dia inteiro só de calcinha, descalça, com o cabelo parecendo uma planta aquática, correndo pelo mato. Morávamos numa chácara, num bairro que respondia pelo bucólico nome de Chácara do Pilão, e que hoje atende pela pavorosa alcunha de Jardim Apurá. Lamentável. De modos que eu só podia ser vista em volta da casa quando estava judiando do meu irmãozinho. Não se preocupem com ele, ele cresceu e revidou, pagou com juros e correção, fisica e emocionalmente.
Era impossível alguém me apanhar, me botar dentro duma camiseta e me desvendar os mistérios do bolo de cenoura ou qrr cousa assim. Eu estava sempre lá fora, chuva ou sol, gritando como uma selvagem, dirigindo uma bicicleta, arrebentando ossos e tendões, esmigalando joelhos e dentes no cimento, sendo picada e mastigada por bichos exóticos, fingindo que era o Frank Poncherello (Do Chips, lembram?) e falando sozinha. Eu sempre fui esquizofrênica.
Fosse eu minha filha, tinha raspado meu cabelo e me vendido pra FEBEM. Enfim.


De modos que a passividade do meu sócio e futuro marido Eurico, de cinco anos (sim, decidimos que daqui vinte anos vamos casar....expliquei pra ele que o Alexandre vai estar velho e feio e que eu vou querer outro), é um assombro pra mim. Passamos a maior parte da manhã e quase a tarde toda na cozinha. Ele adorou. E eu, que acredito firmemente em trabalho infantil, desce que tomadas TODAS as precauções possí­vis e impossíveis acerca de facas pontudas, panelas fervendo e confusões em potencial, também.

Fiz umas receitas com ele, desse livro maravilhoso que eu tenho, comprado há dois anos, quando eu quase adotei uma menininha.
Tem também uma receita linda da Flávia, receita misturada com cartinha de amor, que me inspirou hoje e ainda, uma receita deliciosa que o Nelsinho Biagio me enviou.
Na próxima, falo do pão da Dona Cinira com crueldade nos detalhes.


O livro se chama "Brinque Book com as crianças na cozinha" e é duma moça chamada Gilda Aquino

Bicoitos do Ratinho Eurico


Ingredientes:
2 xícaras de farinha de trigo (peneirada)
5 colheres de sopa de manteiga
100 gr de queijo ralado (mas do bão, gente, aquele pó de serragem não serve)
1 xícara de leite
3 colheres de fermento em pó
1 colher de chá de sal

Nós colocamos todos os ingredientes secos numa vasilha. O Eurico mexeu tudo. Daí o Eurico colocou toda a margarina e ficou olhando enquanto eu amassava tudim com um garfo. Quando virou uma farofona grossa, Eu rico lavou a mão e veio todo lampeiro, e enquanto eu depejava 0 leite devagarinho, ele mexia a massaroca com a mão, extasiado.
Depois ele lavou as mãos de novo, e eu ensinei a ele como untar uma assadeira. Daí, fizemos bolinhas de ping-pong com a massa, e fomos arrumando na assadeira. Eurico comeu uma bolinha crua e deu uma pro Suspiro. Tudo bem, baixas em combate. Esquecemos de contar, mas o livro diz que dá umas 20 bolinhas e deve dar mesmo. São vinte minutos de forno, a mais ou menos 200 graus. Aqui não dá pra contar, pq é forno a lenha , quente como o inferno, em 15 minutos as bolinhas estavam bronzeadas.
Tivemos que fazer 3 receitas, pq foi um sucesso. Até a Cássia comeu.

Miojo do Eurico

Essa não é do livro. Não, eu não vou ensinar vocês a fazer miojo. Mas ensinei o Eurico a fazer, e com requeijão no final, e os olhinhos dele brilhavam.


Depois eu fiz bolo, e ele assitiu, deu apartes e fez comentários pertinentes.

Bolo de cenoura da Cássia (era pra ser do eurico também, mas ele disse que a Cássia anda triste, então demos o nome do bolo pra ela)

Ingredientes

- 4 ovos
- 1 colher de sopa de manteiga
- 1 xícara e meia de açúcar (peneirado)
- 1 xícara de leite
- 3 cenouras cruas
- 2 xícaras de farinha de trigo (peneirada de novo...parece frescura, mas acredita em mim)
- 1 colher de sopa de fermento em pó

Cobertura

- 3 colheres de sopa de chocolate em pó (se tiver um bom chocolate, melhor. Sabe aquele dos frades? Melhor que Nescau e tale e cousa)
- 2 colheres de sopa de açúcar
- 1 xícara de leite
- 1 colher de sopa de manteiga


A cobertura é aquilo, o famoso brigadeiro de pobre: panelinha, ingredientes e vou mexendo devagarinho.

O bolo é baba:
Eu bato as cenouras e os líquidos no liquidificador (pelo amor de deus, se o seu liquidificador for meia boca como o meu, dá uma picada nas cenouras antes, o da Márcia é daqueles caros de 500 pilas, ele guenta com tudo) e misturo depois os ingredientes secos.
Desenformo morno, com todo o cuidado do planeta.
Derramo a cobertura.
Ligo pro meu endocrinologista e peço perdão.

Suspiros do Suspiro (hohohoho)

Ingredientes
4 claras de ovo
8 colheres de sopa de açúcar

Se o seu sócio for tão incrivelmente sabido como o meu, vc não terá problemas. Pedi ao meu para quebrar os quatro ovos e separar as gemas das claras. Ele teve uma pequena ajudinha do Alexandre, mas fez tudo muito bem.
Daí eu bati as clara em neve, no braço, o povo aqui não acredita em batedeira, essas cousas, e quando elas já tavam no ponto de chapéu (sabe, qd vc pode virar a travessa acima da sua cabeça e elas não caem), eu fui pondo o açúcar devagar, colherada por colherada. Eu não, o Eurico. Pode bater mais uns 10 minutos, sem brincadeira. Quando meu braço foi considerado clinicamente morto, fui botando colheradinhas numa assadeira untada previamente pelos belos Alexandre e Eurico e pimba. 15 minutos de forno. Novas ligações pro endocrinologista. Fim.
***
Da Flávia:


"Fal:
Cuco no ninho

Cuco no ninho eh receita classica da minha infancia. Minha Bioia fazia pra mim. E bom demais,olha so:
Ingredientes:
2 fatias de pao de forma
1 ovo
manteiga
sal a gosto

Pegue uma das fatias do pao de forma e faca (leia "fassa",sem cedilha e sem acentos as always) um buraquinho no meio,do tamanho de uma gema.Ponha a manteiga para derreter numa frigideira(eu gosto de muuuita) e coloque a fatia furada.Quebre o ovo em cima da fatia com a gema colocada milimetricamente no buraco. Com uma espatula espalhe a clara pelo pao.Tempere com sal e deixe um tempinho.Coloque a outra fatia(q esta inteira)por cima e vire.Coloque mais um pouco de manteiga,deixe dourar e....Pronto!Ta feito!Dilicia!!!Faz pro Eurico e diz q foi a Tia Fraldinha (meu apelido entre os sobrinhos) q mandou pra ele.
Beijos,querida amada!
Flávia"


***
Bolo do Nelsinho
(que ele aprendeu com a Dona Carlina, em Coimbra. Olha como é lindo os portugueses dizerem "claras batidas em castelo":o))))) )

Ingredientes:
250 grs de manteiga
250 grs de açúcar
250 grs de farinha
12 gemas
6 claras batidas em castelo
Confecção:
Bate-se muito bem a manteiga com o açúcar, junta-se depois pouco a pouco a farinha, as gemas batendo mais um pouco.
Por último as claras batidas em castelo sem bater, mexendo debaixo para cima para ligar.
Vai ao forno médio a cozer numa forma bem untada com manteiga e polvilhada de farinha.
Tempo de cozedura +- 1 hora.
Verifique se está cozido espetando um palito."

# posted by eu
6:10 PM

18/11/03

TETAS

Acordei com sete pessoas diferentes me dando bom dia ao longo do caminho pro banheiro. As pessoas dizem "bom dia" e vc responde "bom dia!". É assim que funciona.
Tomei café da manhã com pão com manteiga, vcs lembram de manteiga? Manteiga, aquele negócio feito com leite, diferente de margarina diet, que é feita com prástico. Tomei café numa cozinha tão grande, que cabe uma mesa de 18 lugares, tudo de madeira, não se fala em fórmica, eles nem sabem o que é isso. Café coado num saco de pano, sabem como é, ele fica dependurado numa armação e coa o café. E vc sente o gosto do café. Café. Café. O leite vem duns baldes grandes de metal, e sabe donde saiu o leite que eu tomei? Não? Da teta da vaca. Oh, yes. Não saiu da caixinha não, foi da teta da vaca. Não foi pasteurizado. Deve ter uns cocozinhos boiando lá. Não foi desnatado? Não, não foi. A vaca botou pra fora, eu fui lá e pimba. Tomei. Meu único intermediário foi o Toinho, o tirador oficial de leite de vaca. Daí eu comi pão. Pão. "Ah, pão também tem aqui", vão dizer vcs, fazendo boca de babado. Pão, senhores, pão feito com banha. "Ui, que nojo!!!". Ãh sim, banha do porquinho. O porquinho, esse bravo, que se sacrificou por nós. E farinha beneficiada no vizinho. E as mãos gorduchas da dona Cinira. Meu pão não nasceu do saquinho. Nem da padaria com luz fluorescente da frente do Quintas do Morumbi. Meu pão nasceu aqui. Nessa mesma mesa onde eu comi o bichinho. Recheado com presunto curado na casinha lá de fora. E com um queijo, um queijo que só pode ser descrito com um sinal divino de que dona Cinira foi uma das escolhidas. Parem de procurar o Messias, ele está aqui e é uma ela.
Enfim.
A aula? Foi razoável. Assim. Vcs sabem. Dar a aula da manhã é um jeito eficiente de passar o tempo até a hora do almoço.
(meu companheiro, moreno e gorducho, sentado no meu colo, concorda. Ele não foi à aula hoje, pra comemorar que eu voltei).

# posted by eu
11:45 AM

12/11/03

SABORES
Na década de setenta eu era uma menina que corria de calcinha pelo quintal e o mundo era cheio (muito mais do que hoje, lamento dizer) de som e fúria, de cores e cheiros, de sensações e, é claro, de sabores.
Sabores azedos e cotidianos como o das mexeriquinhas que comíamos (meu irmãozinho Pedrão, e eu) das árvores e do limão-cravo, que saía direto do pé para a jarra de suco ou para a mesa, onde temperava a salada e o meu bife (essa mania de pôr limão em tudo me acompanha até hoje).
Sabores doces e derretidos, como a mistura encantadora dos “bolo-de-bolo” da minha mãe (“-Mã, o bolo é de que?” “- De bolo, oras!”) , que eram cortados em grossas fatias e envoltos na manteiga salgada Aviação, que vinha em grandes latas e meu pai comprava no armazém do Seu João.
Sabores secretos e excitantes de bolinhos de chuva com canela e açúcar, delicioso segredo com o qual o cozinheiro (como era o nome dele, meu Deus?) aplacava a nossa fome quando voltávamos da equitação e as duas horas que nos separavam do jantar eram longas demais (até hoje eu como esses bolinhos olhando em volta, esperando ser pega em flagrante a qualquer momento).
Sabores açucarados e ternos como o doce de laranja (laranjas inteiras, com casca!), que minha mãe fazia, cuja caldo aplacava a tosse de fumante inveterado do meu avô Affonso. Sabores aconchegantes, como a sopa de beterrabas, ou surpreendentes como os palitos de cenoura crua molhados no vinagre.
Sabores higienicamente comprometidos como os chicletes que meu tio Márcio comprava para mim no botequim e que se caíssem na calçada eu podia comer porque “micróbio não come chiclé, Bi!”, e sabores (todos eles) maravilhosos e assépticos, preparados na imaculada e cirurgicamente esterelizada cozinha da minha avó Cida.
Das muitas fixações da minha vida, comida é a mais feliz delas (que o diga meu manequim 54), e o que comer, quando comer, quem comer (hahaha), como preparar, são dúvidas cruciais, são meu Santo Graal e me encantam, ocupam e apaixonam.
Comida é das manifestações culturais mais importantes, é a mola propulsora de tooooda a civilização (pode apostar seu Big Mac nisso, baby). A identidade social que se revela ao escolhermos este ou aquele alimento, comido assim ou assado (sem trocadilho), aqui ou acolá, revela nossa estrutura de sociedade, nosso estilo de vida, nossa atitude (palavra batida, mas muito boa) diante do SER SOCIAL. E todos nós, o publicitário no sushi-bar, a mulher “muderna” e suas saladinhas, o gordo que mama, com dor e culpa, aquele leite condensado na lata, nas altas da madrugada, o cara que pega trem e ônibus para ir trabalhar e leva a marmita debaixo do braço, o bancário que come com tícket , a mãe que prepara a gelatina para o almoço de sábado e o sem-teto que come o que você jogou fora na lixeira do seu prédio, somos peças desse imenso mosaico, que, chamamos de sociedade e que, também se desenha a partir destas informações.
O país em que vivemos, a sociedade na qual transitamos podem, devem e são também entendidos e analisados através do que comemos - e do que não comemos, claro.
O poeta Robert Frost disse que “ninguém é impunemente”.
Aqui no Panela, provamos que ninguém come impunemente também.
E que isso é maravilhoso.

Um beijo e um queijo
Fal

Selecionei duas receitas que compõem, pela ternura da memória, meu arsenal de primeiros sabores. Se você quiser outras, me escreva!
fabiaazevedo@hotmail.com



SOPA BÁSICA DE PROTEÇÃO CONTRA O FRIO, A DEPRESSÃO E O MUNDO LÁ FORA

Ingredientes
2 maços bem bonitos de espinafre
1 quilo de abóbora
1 xícara de leite
1 litro de água
Sal???
Pimenta branca moída na hora


Como fazer

Lavados os vegetais, ponho tudo numa pala de pressão e deixo cozinhar, em fogo baixinho, com calma, enquanto fico sentada no meu banquinho da cozinha, tomando café com leite morninho e pensando na finitude humana. Quando está tudo tão macio que os cabinhos do espinafre derretem (sim, eu uso os cabinhos), eu ponho o mixer dentro da panela, ligo, e deixo as pás de metal, ajudadas pela eletricidade fazerem seu trabalho. (Os puristas - que Deus os abençoe - passam os vegetais pelas mais diferentes peneirinhas e peneironas e os amassam com garfos variados e empregam toda sorte de recursos para não submeter as vegetais às garras de metal dos aparelhos modernos. Eu não. Eu meto o mixer na panela e estamos conversados).
Só depois eu experimento e vejo quanto sal eu quero pôr. Não aconselho muito. Sal demais não te deixa sentir o maravilhoso sabor do espinafre e o docinho da abóbora. Já um pouquinho de pimenta branca faz um contraste interessante com o fundo adocicado.
Francamente, essa sopa não substitui a terapeuta, mas te dá forças para dirigir até o consultório dela. Ou para voltar para a cama.
Eu tomo em grandes xícaras de boca larga, com colher. E, às vezes, choro um pouco.



BOLO-DE-BOLO-DA-MARLI

Ingredientes
2 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de açúcar
1/2 xícara de óleo
3 ovos
1 laranja inteira
1 colher (sopa) de fermento

Para a calda, 1/2 de copo de suco de laranja (a julgar pelos copos da mamãe, isso é mais ou menos uns 80 ml de suco)

Como fazer

Pré-aqueço o forno em temperatura média (180 graus).
Lavo a laranja e corto em quatro partes, tiro as sementes e os fiozinhos brancos internos.
No liquidificador (no mix não dá, eu já tentei, o meu, pelo menos, num guenta com a laranja), bato a laranja (é, com casca), os ovos (ah, sem casca, hehe) e o óleo.
À parte, misturo a farinha (peneirada, podem me chamar de fresca, mas fica melhor), o açúcar e o fermento.
Daí, eu despejo o que foi batido na tigela e bato com a colher de pau.
Ponho tudo na forma e depois: forno!
Quanto tempo de forno? Isso é de uma delicadeza incrível. Como eu não conheço seu forno, aliás, nem a sua casa, aliás, eu nem sei onde você mora, eu aconselho o velho truque do palitinho-espetado, além de olho, nariz e bom senso. No meu forno, demora cerca de 26 minutos.
Quando o bolo sai do forno, lindo, dourado e glorioso, eu despejo (nele quentinho) o suco coado de laranja, bem devagarinho, espalhando bem para não “alagar”. Daí eu desenformo e não deixo esfriar, claro. Como antes.


# posted by eu
2:15 AM